terça-feira, 18 de agosto de 2009

LINA, DILMA E OUTRAS ESCARAMUÇAS

LinaDilma1 Toda essa onda contra Lina, sinceramente, não dá pra entender. Parece que é o medo de que ela abra mesmo a boca para deixar pessoas em situação desconfortável.

O governo entende que Lina “acusou” a Ministra Dilma. Não vi a acusação. Ela apenas disse que foi chamada para uma conversa com a Ministra, compareceu e ouviu a recomendação de que a fiscalização nas empresas do grupo Sarney andasse depressa.

Termina ai a “acusação”. Lina jamais disse, por exemplo, que a Ministra tenha pedido para que a fiscalização deixasse de ver irregularidades, fechasse os olhos para fraudes e sonegação. Isso, que realmente seria uma grave acusação, Lina não disse. Pedir para acelerar uma fiscalização pode ser para ajudar, para prejudicar, para encerrar o assunto, mesmo que prejudique ou ajude. Tudo isso poderia ter sido dito ou alegado pela Ministra e o assunto morria.

Por que então toda essa assombração governamental? Medo de que? E o medo parece grande. Afinal, a Ministra Dilma, que vinha, depois de candidata, procurando também fazer o tipo “paz e amor”, perdeu as estribeiras e mostrou uma fúria assustadora, com aquele dedo em riste, lábios contraídos, sobrancelhas levantadas e voz em dó maior, o Presidente Collor com o Senador Pedro Simon. O verdadeiro temperamento da Ministra Dilma explodiu naquela hora, a Dilma verdadeira apareceu. Dizem que ela foi aconselhada a mostrar indignação – mas aquilo não é propriamente indignação.

A frase inocente – embora não muito inocente – de Lina realmente produziu um terremoto. O próprio Presidente da República falou sobre o assunto e hoje, quando Lina vai ocupar toda a cena nacional comparecendo à Comissão de Comissão e Justiça do Senado, que a convocou, ela que se prepare. Segundo li há pouco no BLOG DE JOSIAS, Contra Lina, governo arma tática da ‘desqualificação’.

Ontem, dia 17, o Presidente pediu a Lina que apresentasse uma prova de que esteve com a Ministra. Que diabo de prova é esta? Uma agenda? Talvez uma foto das duas? Ou uma fita gravada secretamente, tão ao gosto dos dias atuais? Ou uma conversa de telefone grampeado?

Quem é que anota na agenda toda conversa que tem ou vai ter? Bem: conheço muita gente que faz isso. Mas, também conheço pencas de pessoas que nem agenda têm. E daí?

domingo, 16 de agosto de 2009

Trapalhadas em série

(Artigo publicado na FOLHA DE SÃO PAULO, edição de 16 de agosto de 2009)

RUBENS RICUPERO
Ao censurar Colômbia e EUA, o Brasil se desqualificou como mediador imparcial no caso das bases americanas

NOS CURSOS de diplomacia e comunicações, o caso das bases colombianas deveria ser ensinado como exemplo do que não fazer. Todos os protagonistas, inclusive o Brasil, saíram-se mal de episódio cujo saldo líquido é patentear a aguda fase de divergência que vive a América do Sul, não obstante as boas intenções da Unasul e do Conselho de Defesa.
Se for verdade que não se cogita instalar bases novas, apenas aumentar o pessoal americano em instalações controladas pela Colômbia, estamos diante de monumental "metida de pata" em comunicações. Ao contrário, se houver mesmo intenção de transferir a base aérea de Manta para a Colômbia, a decisão é lamentável, mas não justifica a histeria da reação: durante os dez anos em que a base permaneceu no Equador, não consta que ela tenha causado nenhum problema de segurança.
Soam despropositadas e excessivas as alusões de Chávez, Rafael Correa e Evo Morales a guerra e mobilização. A não ser que visem esconder cumplicidades embaraçosas com a guerrilha colombiana em matéria de desvio de armas, apoio logístico, santuários na fronteira. Após as provocações a que se entregou na visita da Marinha russa, o líder venezuelano é o último a poder censurar os demais quanto a servir de instrumento para a introdução de potências estrangeiras na região.
O Brasil terminou bem sua infeliz participação na novela. O tom conciliador e construtivo adotado na reunião de Quito da Unasul não bastou, contudo, para apagar a penosa impressão deixada pelo zigue-zague das declarações do presidente, do chanceler e do assessor presidencial. A nota que prevaleceu foi a da mal disfarçada censura à Colômbia e aos Estados Unidos.
Ora, ao agir desse modo, o país obviamente se desqualifica para atuar como mediador imparcial. Não admira que o presidente colombiano se tenha apressado em oferecer esse papel ao presidente Calderón, do México, justamente o país que havia sido excluído da Unasul, concebido como exclusivo foro sul-americano.
Essa desfeita diplomática se deve a erro elementar que o Itamaraty jamais cometeu no passado: o de acuar os países latino-americanos, querendo forçá-los a escolher entre nós e os EUA. Nossos vizinhos querem ter boas relações com ambos, sem precisar optar por um ou outro.
No entanto, se forem obrigados, não é difícil imaginar quem escolherão.
Isso é sobretudo verdade em duas áreas. A primeira é o comércio, em que há 20 anos acumulamos saldos crescentes no intercâmbio com os demais, às vezes de 10 para 1. Temos muito a vender e quase nada a comprar. Como se melindrar se outros desejam firmar acordos de livre comércio com o maior mercado consumidor do mundo, ao qual destinam mais de 50% das exportações, chegando até a 80%?
Ocorre o mesmo na defesa. Quem levaria a sério a possibilidade de uma alternativa brasileira à ajuda militar americana à Colômbia? Mais de US$ 6 bilhões foram já despendidos no Plano Colômbia e Bogotá se tornou o terceiro maior beneficiário da assistência militar dos EUA, após Israel e o Egito. Como condenar país que luta pela sobrevivência contra narcotraficantes e guerrilheiros que não se distinguem de bandidos?
As animosidades e as suspeitas só poderão ser superadas se a Unasul fizer valer para todos a mais rigorosa não ingerência, o que se aplica também às declarações das autoridades brasileiras.


RUBENS RICUPERO , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, no jornal FOLHA DE SÃO PAULO.

rubric@uol.com.br

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

RN: DA SECA DO PASSADO À ENERGIA DO FUTURO

No início do século passado falavam em “indústria da seca” como a grande fonte de riqueza do Rio Grande do Norte. Era preciso encher a face de lágrimas e sair por ai fazendo o marketing da miséria, que ainda hoje serve a outros propósitos que não vem ao caso discutir aqui.

Depois, mesmo com o caráter lotérico de fazer agricultura no semi-árido sem irrigação, o algodão multiplicou usinas de descaroçamento e fábricas de óleo que funcionaram muitas décadas.

A scheelita, o sal, a indústria de confecções, a pesca da lagosta vieram depois.

Cada uma dessas atividades teve, a seu tempo, muita importância para Estado, assim como inspirou discursos, artigos de jornal, investimentos sérios e picaretagem de todo tipo.

Todas tiveram o seu florescimento e a sua decadência.

Em tempos menos remotos, coisas mais sólidas começaram a aparecer: a indústria têxtil moderna, a irrigação, o turismo, o petróleo.

E o futuro? Energia será a palavra chave, mais cedo ou mais tarde.

Continuaremos a ter, se Deus quiser, a energia do petróleo e do gás, que ainda serão importantes no mundo por bastante tempo. Também teremos um pouco de etanol. Mas, iluminando mesmo esse futuro – em um tempo que mal começa, em que a humanidade não vai mais permitir agressões ambientais irresponsáveis – está a produção de energia limpa, que reserva um papel de grande pujança econômica para o Rio Grande do Norte, se tivermos juízo e competência a partir de agora.

Energia limpa, como a que o vento e o sol podem nos oferecer.

Em seu ATLAS DA ENERGIA ELÉTRICA NO BRASIL, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) fornece informações que permitem concluir duas coisas: (a) que a energia elétrica gerada pelo vento tem enorme potencial no país e (b) o Rio Grande do Norte deverá ser o seu mais importante produtor.

O ATLAS cita relatório de âmbito nacional publicado pelo Centro de Referência para Energia Solar e Eólica - CRESESB/CEPEL, que estima o potencial eólico brasileiro em 143 GW.

O mapa apresentado pela ANEEL no documento em referência mostra as áreas de menor e de maior interesse em função do seu regime de ventos.

O país foi dividido em quatro classes. As áreas classificadas nas áreas 1 e 2 têm pouco ou nenhum interesse para o aproveitamento do potencial energético do vento. A classe três é de muita importância e a classe 4 tem o mais notável potencial. Mais da metade do território do Rio Grande do Norte está nessas duas classes. Observe-se que a área 4 (mostrada em preto) ocupa um grande espaço no território do Estado, e praticamente não existe em qualquer outro Estado, com exceção do Ceará, onde aparece, junto da fronteira com o RN, um pequeno espaço que integra a classe 4. Veja esse mapa a seguir.

Eólica_atlas

No caso da energia solar, as nossas possibilidades são ainda mais óbvias.

Na região de Macau a Areia Branca, no litoral norte do Estado, não é por acaso que se produz 98% do sal brasileiro. É que ali – único ponto onde o semi-árido, o sertão, chega à beira da praia – o coeficiente de evaporação é maior do que o de precipitação: sobe mais água do chão para o céu do que toda a chuva que cai. Isso é sol. O mesmo sol que produz o nosso sal, evaporando a água do mar nas salinas, pode gerar uma enorme quantidade de energia elétrica para servir ao Brasil.

Muitos sustentam que a energia solar é cara e ineficiente, porque exige grandes áreas para poder alcançar produções significativas. Essa noção não pode aplicar-se muito rigorosamente, entretanto, em um país com intensa produção de energia hidrelétrica, barrando rios e inundando grandes áreas, como o Brasil.

Sobre isto, diz a ANEEL em seu Atlas:

Uma das restrições técnicas à difusão de projetos de aproveitamento de energia solar é a baixa eficiência dos sistemas de conversão de energia, o que torna necessário o uso de grandes áreas para a captação de energia em quantidade suficiente para que o empreendimento se torne economicamente viável. Comparada, contudo, a outras fontes, como a energia hidráulica, por exemplo, que muitas vezes requer grandes áreas inundadas, observa-se que a limitação de espaço não é tão restritiva ao aproveitamento da energia solar.

Considere-se o seguinte: se fosse recoberta com células fotovoltaicas (captadoras de energia solar) uma área equivalente à que está inundada pela barragem de Itaipu, a produção de energia elétrica que seria obtida corresponderia a mais do que o dobro da energia que se produz naquela represa.

Se, por exemplo, fosse escolhida uma área delimitada por uma poligonal traçada a partir de Itajá, passando por São Rafael, Santana do Matos, Lajes, Angicos e voltando a Itajá, teríamos uma enorme produção de energia elétrica, sem causar danos a atividades econômicas relevantes e nem ao meio ambiente, e abrindo para essa área bastante pobre do Estado um novo e pujante capítulo de riqueza em sua história.

sábado, 8 de agosto de 2009

GELEIRAS DERRETENDO: MARES SUBINDO

O site da CNN publica hoje matéria que aumenta as preocupações de quantos olham responsavelmente para o futuro deste planeta: a velocidade em que se dissolvem as geleiras que estão sendo monitoradas diretamente é muito maior do que se esperava. A CNN afirma que “um estudo de 50 anos do governo descobriu que as geleiras estão se dissolvendo a uma taxa rápida e alarmante” (tradução livre).

A pesquisa é realizada pelo US Geological Survey, e se iniciou em 1959. Entre outras coisas, os estudos monitoram diretamente três geleiras: uma delas, South Cascade, no Estado de Washington (costa oeste do território contínuo dos Estados Unidos) e duas outras, Wolverine e Gulcana, no Alaska.

Entendem os cientistas que essas três geleiras, por estarem localizadas em regiões diferentes, inclusive do ponto de vista do clima, são representativas das demais áreas de acumulação de gelo em todo o mundo.

Ao longo desses 50 anos, os cientistas têm medido a quantidade de neve que as áreas estudadas recebem em cada inverno e o volume que se dissolve em cada verão. Como um exemplo eles informam que, a partir de 1960, a geleira South Cascade, em Washington, perdeu metade do gelo que tinha e deverá perder metade do que tem hoje nos próximos 100 anos.

Edward Josberger, cientista chefe da pesquisa, disse à CNN que "pensamos que definitivamente alguma coisa está em marcha, provavelmente em escala global” e prosseguiu assegurando que “quando reunimos todas essas medições podemos afirmar que as geleiras estão se dissolvendo, sim, e muito rapidamente”.

E eu com isso?

Você pode achar que geleira derretendo no Alaska ou no Estado de Washington não é assunto seu. Você é que sabe se é ou não é. Mas, os doutores por lá estão alertando que isso quer dizer que os mares continuarão subindo. Como esse marzão está todo junto, isso vai ser notado em Jacumã, em Muriú, em Pirangi e na Pipa…

Veja como termina a notícia (tradução livre): “O derretimento das geleiras tende a continuar e, à medida em que continua, espera-se que o nível dos mares ao redor do mundo continue a subir. Isso poderá afetar populações vivendo em comunidades localizadas em baixas altitudes no litoral, forçando-as a mudar os seus lares mais para o interior”.

Não é hora de aterrorizar ninguém. Mas, é tempo de esperar que haja menos palavrório e mais ação tecnicamente consistente, inclusive da parte dos chamados “ambientalistas”, que precisam valorizar mais a ciência do que as palavras de ordem politiqueiras. (Para ler toda a notícia clique aqui).

NA ATIVA NOVAMENTE

Tenho andado metade ocupado, metade preguiçoso e deixei o blog parado tempo demais. Se alguém ainda se interessa por ele, vamos voltar à ativa.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

OUTSOURCING: Brasil como novo alvo

A quase instantaneidade das comunicações, especialmente via internet, gerou o que já não é novidade, mas não deixa de ser impressionante: um método de trabalho que ganhou o nome de “outsourcing” nos Estados Unidos e manteve esse apelido, inclusive no Brasil.

Claro que você sabe de que estou falando. Trata-se de transferir para fora do país atividades que podem ser realizada no exterior com a mesma eficiência e muito menor custo –- contadores americanos, por exemplo, contratarem os seus auxiliares na Índia e o cliente ter, em consequência, a sua declaração de imposto de renda feira do outro lado do mundo; callcenter de um banco, de uma grande cadeia de lojas americanas localizado também na Índia, significando que se você tem uma reclamação sobre um produto que comprou ou se precisa de uma informação, liga para um telefone 1.800 e é atendido por alguém com quem você conversa como se a pessoa estivesse do outro lado da rua.

Este é um fenômeno é típico da globalização e é exatamente o contrário do que muitos dos pseudocientistas dos países em desenvolvimento, inclusive do Brasil, previam que ia acontecer. Entendiam que a globalização era contra os interesses dos trabalhadores de países como o nosso e só serviria aos interesses das empresas internacionais, especialmente as americanas.

E o que está acontecendo neste caso é que empresas que funcionam nos Estados Unidos estão criando empregos fora do seu país, neste caso, no nosso.

Agora, a escolha do Brasil para localizar atividades de outsourcing começa a ganhar impulso.

No dia 30 de julho, em Jersey City, no Estado de New Jersey, nos Estados Unidos,  o “Outsourcing Institute” estará promovendo um seminário, no Hyatt Regent Hotel, em que o tema é WHY CONSIDER BRAZIL. Os participantes pagarão de 995 a 2995 dólares por cabeça para assistir.

Os motivos principais alegados para justificar a proposta de escolha do Brasil, são:

1.  Custo operacional total  40 % mais baixo do que nos Estados Unidos;

2.  Horário de trabalho grosso modo equivalente e proximidade geográfica facilitam o controle e supervisão dos serviços;

3.  Compatibilidade cultural entre o povo brasileiro e o americano, ética profissional semelhante, criatividade na solução de problemas e capacidade de execução rápida de projetos e tarefas.

Parece que têm razão algumas lideranças americanas mais conservadoras: a globalização parece prejudicar os trabalhadores dos países desenvolvidos, na medida em que transfere para países como o Brasil, a Índia, o México, a Indonésia, tarefas – e portanto empregos – que, de outro modo, seriam criados obrigatoriamente no pais sede.