No início do século passado falavam em “indústria da seca” como a grande fonte de riqueza do Rio Grande do Norte. Era preciso encher a face de lágrimas e sair por ai fazendo o marketing da miséria, que ainda hoje serve a outros propósitos que não vem ao caso discutir aqui.
Depois, mesmo com o caráter lotérico de fazer agricultura no semi-árido sem irrigação, o algodão multiplicou usinas de descaroçamento e fábricas de óleo que funcionaram muitas décadas.
A scheelita, o sal, a indústria de confecções, a pesca da lagosta vieram depois.
Cada uma dessas atividades teve, a seu tempo, muita importância para Estado, assim como inspirou discursos, artigos de jornal, investimentos sérios e picaretagem de todo tipo.
Todas tiveram o seu florescimento e a sua decadência.
Em tempos menos remotos, coisas mais sólidas começaram a aparecer: a indústria têxtil moderna, a irrigação, o turismo, o petróleo.
E o futuro? Energia será a palavra chave, mais cedo ou mais tarde.
Continuaremos a ter, se Deus quiser, a energia do petróleo e do gás, que ainda serão importantes no mundo por bastante tempo. Também teremos um pouco de etanol. Mas, iluminando mesmo esse futuro – em um tempo que mal começa, em que a humanidade não vai mais permitir agressões ambientais irresponsáveis – está a produção de energia limpa, que reserva um papel de grande pujança econômica para o Rio Grande do Norte, se tivermos juízo e competência a partir de agora.
Energia limpa, como a que o vento e o sol podem nos oferecer.
Em seu ATLAS DA ENERGIA ELÉTRICA NO BRASIL, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) fornece informações que permitem concluir duas coisas: (a) que a energia elétrica gerada pelo vento tem enorme potencial no país e (b) o Rio Grande do Norte deverá ser o seu mais importante produtor.
O ATLAS cita relatório de âmbito nacional publicado pelo Centro de Referência para Energia Solar e Eólica - CRESESB/CEPEL, que estima o potencial eólico brasileiro em 143 GW.
O mapa apresentado pela ANEEL no documento em referência mostra as áreas de menor e de maior interesse em função do seu regime de ventos.
O país foi dividido em quatro classes. As áreas classificadas nas áreas 1 e 2 têm pouco ou nenhum interesse para o aproveitamento do potencial energético do vento. A classe três é de muita importância e a classe 4 tem o mais notável potencial. Mais da metade do território do Rio Grande do Norte está nessas duas classes. Observe-se que a área 4 (mostrada em preto) ocupa um grande espaço no território do Estado, e praticamente não existe em qualquer outro Estado, com exceção do Ceará, onde aparece, junto da fronteira com o RN, um pequeno espaço que integra a classe 4. Veja esse mapa a seguir.

No caso da energia solar, as nossas possibilidades são ainda mais óbvias.
Na região de Macau a Areia Branca, no litoral norte do Estado, não é por acaso que se produz 98% do sal brasileiro. É que ali – único ponto onde o semi-árido, o sertão, chega à beira da praia – o coeficiente de evaporação é maior do que o de precipitação: sobe mais água do chão para o céu do que toda a chuva que cai. Isso é sol. O mesmo sol que produz o nosso sal, evaporando a água do mar nas salinas, pode gerar uma enorme quantidade de energia elétrica para servir ao Brasil.
Muitos sustentam que a energia solar é cara e ineficiente, porque exige grandes áreas para poder alcançar produções significativas. Essa noção não pode aplicar-se muito rigorosamente, entretanto, em um país com intensa produção de energia hidrelétrica, barrando rios e inundando grandes áreas, como o Brasil.
Sobre isto, diz a ANEEL em seu Atlas:
Uma das restrições técnicas à difusão de projetos de aproveitamento de energia solar é a baixa eficiência dos sistemas de conversão de energia, o que torna necessário o uso de grandes áreas para a captação de energia em quantidade suficiente para que o empreendimento se torne economicamente viável. Comparada, contudo, a outras fontes, como a energia hidráulica, por exemplo, que muitas vezes requer grandes áreas inundadas, observa-se que a limitação de espaço não é tão restritiva ao aproveitamento da energia solar.
Considere-se o seguinte: se fosse recoberta com células fotovoltaicas (captadoras de energia solar) uma área equivalente à que está inundada pela barragem de Itaipu, a produção de energia elétrica que seria obtida corresponderia a mais do que o dobro da energia que se produz naquela represa.
Se, por exemplo, fosse escolhida uma área delimitada por uma poligonal traçada a partir de Itajá, passando por São Rafael, Santana do Matos, Lajes, Angicos e voltando a Itajá, teríamos uma enorme produção de energia elétrica, sem causar danos a atividades econômicas relevantes e nem ao meio ambiente, e abrindo para essa área bastante pobre do Estado um novo e pujante capítulo de riqueza em sua história.